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Artistas 2025

Artistas franceses convidados 2025

Artistas e livros, andarilhos pela própria naturezaPaulo Silveira

Para muitos brasileiros envolvidos com a imagem e a cultura, é provável que desde os bancos escolares a figura do personagem histórico do artista viajante tenha permanecido viva na memória. No meu caso, durante a adolescência, essa figura humana surgiu na sala de aula como algo fascinante, e assim tem se mantido até o presente. Tratava-se de um artista estrangeiro, geralmente europeu, ilustrador qualificado, que abandona o conforto doméstico para se aventurar na longa travessia do Oceano Atlântico. Aqui chegando, registrava em desenhos nossa geografia, fauna, flora, etnias e o que mais fosse do interesse de reportagens visuais de então, e hoje indispensáveis. São heróis de um tempo que passou, colocando a prática artística a serviço do conhecimento e da divulgação que, por contingência de luxo, estão entre os primeiros reconhecimentos de nossa identidade natural e social. Séculos se passaram e outros imperativos e procedimentos surgiram, assim como novos interesses e funções. O fascínio do artista pela viagem, pelo deslocamento geográfico real ou imaginário prossegue, asseverado pelos meios de transporte e de comunicação.

A possibilidade de diálogo entre os locais de origem do ensaio visual e os de destino de sua apreciação é o mote da proposição exercitada por integrantes das oficinas da residência M.A.L.A., não propriamente um siglema, mas iniciais estilizadas para Morada Andarilha de Livros de Artista. A primeira edição ocorreu em 2024 entre Brasil e México, no Zócalo, a fascinante praça no centro histórico da Cidade do México, e na Galeria Página, em São Paulo. A segunda edição, em 2025, tem um pé na Biblioteca Mário de Andrade (e Feira do Livro do Pacaembu) e outro na França, em Paris, na galeria Enseigne des Oudin e na Médiathèque Marguerite Duras.

Nesta nova trajetória, o mote dos trabalhos é travessia. Do passado histórico, persiste a intercorrência de identidades geográficas ou determinação de lugar, mas hoje a origem desses novos artistas viajantes e o sentido do trajeto são inversos. A partida se dá do lado de cá do Atlântico, e o arco, atingindo cerca de 9.500 quilômetros, conforme ensinam os guias (livros) turísticos, chega à Europa. A residência artística teve como método estruturante a interlocução entre pares, com encontros presenciais e remotos, incluindo conversas técnicas e críticas com professores convidados. Integrantes do grupo desenvolveram seus repertórios pessoais com apoio de novos e velhos saberes das práticas artísticas, em especial da encadernação criativa, sob orientação especializada de Liliana Pardini, Estela Vilela (ambas no Brasil), Monique Allain (desde os Estados Unidos) e Chica Boyriven (a partir da França). A articulação entre proposição e prática surgiu naturalmente, sem complicação. Livros, pela portabilidade, e artistas, porque têm pernas, são andarilhos por sua própria natureza.

O contato com os trabalhos propicia a verificação da diversidade formal e retórica de resultados, assim como a envergadura da proposta, onde se impôs algum grau de referência espaço-temporal ao conceito de travessia. Trinta participantes elegeram suas ferramentas particulares já conhecidas ou se aventuraram a novos recursos

 O resultado alcançado permite que o enunciado “terra à vista”, metafórico, seja uma asserção quase que audível. São artistas viajantes, sem dúvida, que não se furtam à geolocalização referencial. Desta vez, entretanto, o chão não é necessariamente firme, mas muito mais território de dentro, pessoal, antevisto numa luneta ambígua e talvez reversa, algo como ao experimentar o girar de um instrumento óptico com espelhos e pedaços coloridos de vidro que se rearranjam em possibilidades diversas, como remissões a marcadores geográficos ou geo-históricos, cartografias urbanas, menções a localidades e paisagens, memoriais biográficos, estudos poli ou monocromáticos, retórica gráfica ou fotográfica, experimentos com estruturas, articulações mecânicas e elocuções verbais, entre outras abordagens e recursos. As construções e diagramas, mise en pages em sentido amplo (bi ou tridimensionais, e mesmo sua própria negação), são desenvolvidos com uso de materiais já conhecidos ou experimentados para os objetivos projetados, podendo envolver cortes, recortes, fios, costuras, colagens, dobraduras, encaixes e quaisquer recursos funcionais que atendam com objetividade as necessidades subjetivas individuais. Experiência complementar e encantadora foi ouvir o relato de participantes da residência sobre suas proposições, seus métodos, suas inquietudes, às vezes os questionamentos de quase certezas, também em trânsito. 

Resultando na reunião bem-sucedida de diferentes expertises e histórias de vida, a proposta dos encontros e da mostra se reafirma como força estruturante que, sob um tema agregador, alinha o conjunto de individualidades, não necessariamente propondo relatos de travessias, chegadas e investigações em terras desconhecidas, direcionadas para o exótico, mas travessias e partidas a partir de quintais próprios. Por extensão de sentido, como evocação francamente afetiva da meninice, e substituindo a luneta, que durante o percurso aventureiro instrumentalizava o olhar para a transposição de distâncias reais, elejo o caleidoscópio, aqui de introspecções e memórias, dispositivo simbólico para a sucessão do adivinhado por visões singulares.

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